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The Cage Fevereiro 24, 2007

Posted by lado oculto in Fotos & Desenhos.
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O que oprime também liberta…

Dusk

Sorriso Novembro 15, 2006

Posted by lado oculto in Escritas.
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Lá venho eu mais uma vez registar da maneira que sei melhor, os pequenos pronuncios da minha vida. Estou novamente mal, mesmo mal, muito pior. Já parava de crescer esta infelicidade adquirida, adormecida e novamente inflamada até enfurecida.
Serei acusada de cinismo por sorrir diariamente, por falar sorrindo, por encarar com um sorriso? Essa é a minha capa, a minha protecção para aguentar tudo e todos. Mas até que sou mesmo assim. É porque sou feliz. Lá no fundo sei que tenho razões para sorrir e que seria estúpido não o fazer. Apesar de ter pequenos problemas que me corroem, de ter preocupações, da minha crise existencial e de me faltar algo preponderante como o amor, sou feliz. Na medida do possível. Penso que este será dos últimos anos em que poderei dar-me ao luxo de dizer tal coisa. E o que têm os outros a ver com isso?
Há quem ache que sou simpática, divertida e que tenho uma boa atitude perante a vida. Porque vêm agora alguns julgar-me por estar sempre a sorrir? Já o faço instintivamente. E querem saber mais? Não me importa as rugas que me crescem nos cantos dos olhos, hei-de sorrir tanto até que elas estejam tão vincadas que se assemelhem a cavernas. Cavernas como aquela em que me refugiei antes. Aquela em que me escondia a mim e ao meu sorriso, e de que ninguém me mostrava como sair. Até que eu mesma, descobri, que era só andar em frente.
Porque vem então a infelicidade visitar-me tantas vezes? Tirando me o sorriso que já se fartaram de ver? Isso não vêm, as vezes em que a infelicidade me assombra e me leva o sorriso, as horas que passo sem que os meus lábios se estiquem, as noites em que tudo isso me relembra e assemelha ao ser que deixei de ser.
Estou farta de ser infeliz, tenho de encarar as pequenas coisas que alcanço como uma felicidade. Estou farta de não sorrir sem que ninguém isso veja, por isso vou sorrir até que já ninguém queira olhar e então poderei chorar.

Inflamable Soul

In Corpore (III e última parte) Outubro 6, 2006

Posted by lado oculto in Escritas.
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Flashes de imagens surgem repentinamente na tua cabeça e fazem disparar os níves de adrenalina e desconforto para patamares nunca antes experimentados. É como se um projectista louco tivesse decidido expor toda a tua vida em frames de milésimos de segundo, alternados e caóticos, desprovidos de qualquer lógica aparente. Mas tu sabes que é o personagem principal.

E com o avançar do filme vais começando a compreender tudo o que se está a passar. Descobres então que nunca acreditaste na tua mãe, na história dos anjos e das libelinhas. Abdicaste da visão segura da tua progenitora e optaste pelo medo e engano. Desde então que compreendeste que para não morrer terias que controlar, controlar cada emoção e pensamento. Calcular cada passo e assumir que tudo é válido para garantir o teu mais precioso bem, o teu domínio, a tua vida. Cedo descobriste como mentir, manipular, distorcer, enganar(-te), iludir(-te), que usar e abusar são as melhores ferramentas para persistir sobre os outros. Habituaste-te à mesquinhez e à submissão cuidadosamente planeada, não fosse qualquer animal mais bruto por em perigo todo o teu plano ao destruir a tua carapaça, o teu corpo ou o teu espírito. E com o avançar da idade veio a ganância, a ambição, a gula e a luxúria. Sexo, dinheiro, poder. Dominar e violentar, tornaram-se os teus jogos favoritos. Qual larva de libelinha qual quê, eras um tubarão, um ser de violência súbtil, fria e sem escrúpulos. Os desejos eram para atender, já, aqui e a qualquer preço. A morte não iria levar a melhor, pois tinhas cada vez mais e mais poder, e estavas quase a descobrir a maneira de a enganar, de convencer a velha ceifeira que eras demasiado importante para seres aniquilado e reduzido a nada. Nem libelinha nem anjo, o teu destino seria outro! 

Um lancinante rasgão abre-se no teu peito e resgata-te para o mundo negro onde te encontras. A dor que percorre o teu corpo é insuportável, o silvo transformou-se em guinchos e urros de desespero. Afinal nada sentir era uma benção, porque agora abrem-se novos buracos na tua cara. Uma luz vermelha e tremeluzente faz-te compreender que tens novamente olhos, e num esforço desvairado rompes uma nova cavidade por onde consegues projectar uma lingua aguda e longa. A tua boca enche-se de espuma ensaguentada à medida que os teus dentes afiados irrompem pela carne das gengivas. O teu peito explode com um bater violento e ritmado que denuncia o teu novo coração. Começas a contorcer-te e a despedaçar a antiga pele. Irrompem dois braços, compridos e glabros, terminados com mãos de dedos finos de garras afiadas. Ao medo sobrepõe-se a aceleração e o extase. Estás quase completo! Surgem as pernas e pés, que afastam uns últimos restos de casulo que ainda persistia agarrado. Não sabes o que se passa, mas sentes o sangue a acelerar nas tuas veias. Sentes-te a renascer! Num movimento espasmódico o teu corpo contorce-se e enrola-se para dentro. As dores aumentam vertiginosamente e cais. Numa nova descoberta decides forçar o ar para fora dos pulmões e tentas gritar, mas só sai um abafado rosnar, que progressivamente se transforma num urro de animal. E eis que elas surgem! Ah, em todo o seu esplendor e glória, erguem-se duas asas das tuas costas, como velas num navio de guerra, espraiam-se os estandartes a todo o pano. Cada uma maior que o comprimento do teu corpo, esntende-se ao comprido e exibem-se em toda a sua glória.A tua visão torna-se clara e perfeita.

A porta da cela abre-se e tens alguém à tua espera. Um enorme e gordo demónio cinzento e de olhos amarelos aguarda o recém formado novo membro do enxame de Arachula. Sorris e aceitas o teu destino. Afinal mamã, tinhas razão. É no mundo Humano que determinamos que larva somos. E é a morte que nos liberta e nos solta para um mundo maior. “Quem me der que visses agora as asas da tua libelinha mamã, quem me dera…” 

 De Profundis

In Corpore (Parte II) Outubro 3, 2006

Posted by lado oculto in Escritas.
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– Mamã, porque temos que morrer?

– Oh filhote, da mesma maneira me podias perguntar porque temos que nascer. A morte é apenas uma etapa de um grande ciclo, é como o conto da libelinha, lembras-te?

– O conto da libelinha..? Ah, já sei, ela nasce de um ovo e é uma larva que vive dentro de água. Cresce e quando chega a hora transforma-se, é esse?

– Sim querido, é esse mesmo. A larva tem que sair da água para morrer como larva. Só assim pode ‘nascer’ o adulto, uma libelinha colorida e esvoaçante.

– Mas e a libelinha, depois de adulto, o que lhe acontece?

– Voa, encontra outras libelinhas, produzem mais ovos para nascerem mais larvas e…

– .. e morrem! Eu sei que morrem, já encontrei uma morta no nosso jardim! A vida delas também acaba mãe, eu sei que sim…

– Morre de facto a libelinha, mas algo perdura e o ciclo da vida continua.

– E se o mundo mudar tanto que não possam existir mais larvas? Se não houver mais rios e charcos? Se não houver espaço para as libelinhas larvas, se não houver Sol para as aquecer, ou se o Sol for tão quente que as coza vivas, e se…

– Calma, não fiques assim tão ansioso. Dentro de algumas horas o Sol nascerá novamente e verás que é de novo dia. E a esse seguir-se-à outro e outro. E mesmo quando eu e tu já não estivermos aqui, com este corpo, estes braços e mãos, estes olhos e boca, ninguém sabe onde poderemos estar e sobre que formas. Há quem diga que nos metamorfoseamos em anjos com o avançar dos tempos. Há que ter paciência e viver sempre a praticar o bem e a vivenciar o amor. Assim saberás que um dia te poderás tornar um anjo.

– Mamã, e quem não sente amor nem pratica o bem?

– A esses meu filho, temo que.. 

Novo estrondo. Despertas de um sonho que te parece tão irreal quanto a realidade que agora vives e tendes a aceitar como sendo incontornável. A tua pele está agora rija e muito lisa. Já não sentes nada que se assemelhe a uma língua, uma boca, um coração ou um pénis. A escuridão é total, a privação de sentidos já não te aflige tanto. Dentro de ti sentes que tudo vibra, desliza, pulsa, mexe e se rearranja. O silvo persiste na tua cabeça, mas deixou de ser assustador para se tornar apenas ruído de fundo. Não te importas e adormeces novamente.

(…continua para III e última parte)

De Profundis 

A’haeraa Outubro 1, 2006

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Deito-me na banheira e deixo-me inundar pela água que corre dos canos com uma violência inusitada. A água entra-me pela alma adentro, preenche os vazios deixados por um fantasma antigo, purifica-me. Fecho os olhos e sinto-me acariciada; sinto-me no meu elemento. Suavemente, uma mão invisível acaricia os meus cabelos e torno-me ondulante como uma alga, harmoniosa como uma corrente marinha. Sou compelida a permanecer debaixo de água por aquela mão que, docemente, me empurra para o fundo da banheira e para o fundo de mim. Ouço, ao fundo, a voz-guia que me canta para fora de mim… e vejo-me do alto, como se o meu corpo não fosse mais que uma pedra atirada para um lago. Olho o meu reflexo, mas não me reconheço na imagem que as águas que me sugam para o Nada me devolvem. A mão incorpórea leva-me para longe, e o meu invólucro não é mais que um pontinho nas imensas águas de um rio.

Estiro-me até sentir que o mais longínquo ponto de mim toca o infinito… e sei que a mão invisível pinta no meu ventre uma lua cheia. Azul.

Sobre cada pedacinho de mim, uma palavra desconhecida, uma palavra de fogo que me faz arder de impaciência. Nas paredes, sombras dançam lentamente ao som da voz-guia que me (en)canta para fora, sempre para fora…

De súbito, a voz cala-se. Abro os olhos de rompante e vejo a água transbordante que se espalha pelo chão. A minha concha, vazia, jaz no fundo da banheira e deixa-se espalhar juntamente com o líquido. Pestanejo. Sou líquida.

Ergo o ventre, num espasmo, e coloco as mãos sobre a ferida invisível da lua azul pintada a fogo em mim.

A’haeraa.

Levanto-me, escorrendo, e navego em direcção ao porto de mim.

 

Talayen 

In Corpore (Parte I) Outubro 1, 2006

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…E levantas a cabeça e olhas a toda a tua volta.Um estranho sentimento de desordem e uma dor de cabeça instalam-se à medida que os empoeirados globos oculares se abrem e vislumbram um mundo antes tão familiar.

Não sentes qualquer sabor, a língua encortiçada e gretada ocupa quase toda a cavidade oral e voga num aparente vazio de veludo, fruto da ausência de quaisquer dentes ou lábios, apenas uma greta calejada onde estavas certo haver uma boca.

Esperas conseguir-te levantar e acabar já com este horrível pesadelo… mas as mãos não parecem responder aos teus pedidos de socorro, estão dormentes, estão presas, estão… onde? Onde foram parar os teus braços, as tuas mãos, as tuas pernas?? Já não estás horrorizado, estás completamente em pânico!

De um modo absolutamente inesperado, consegues sentir todo o teu corpo fusiforme a contorcer-se em convulsões suaves e ritmadas. Estás a arder de febre, mas nem pinga de suor. Os teus poros emitem um espesso líquido esbranquiçado que à medida que recobre toda a superfície do teu corpo emite uma luminosidade lúgubre e doentia, tal como aqueles autocolantes de monstros que brilhavam no escuro que colavas na parede do teu quarto quando eras pequeno. Há quanto tempo terá sido isso…? Por um momento sentiste-te a salvo, de volta à infância, de volta a um mundo de conforto, familiar, seguro…

Que foi isto?! Um súbito ruído de metal pesado a deslizar bruscamente desperta-te da tua fantasia. Jurarias que o teu coração disparou, mas não o sentes no peito. É no teu ventre que pulsa um tubo nodoso que espalha sangue e linfa por entre os orgãos e os tecidos que te compõem. O líquido viscoso que de ti emana está mais esverdeado. Agora sim, estás tal e qual os monstros da tua infância. E estás tão preso quanto eles, imóvel, manietado, com pulsões e contorções cada vez mais dolorosas a percorrer o teu corpo dormente e esponjoso.

Queres ver o que se passa, mas os teus olhos estão cada vez mais secos e a visão mais turva, uma cortina branca impede a tua retina de absorver informação. Estás praticamente cego. Sentes que mais uns minutos (horas? Dias? Qual o ritmo do tempo?) e estás completamente desprovido de sentidos. Resta-te um ruido sibilante que crepita na tua cabeça, um sopro agreste que te embala para um sono do qual não saberás se irás sair.

O mundo tornou-se estéril, estático, estranho, estanque.

Será isto a morte?(…) 

(continua…)

De Profundis

Deserto Setembro 28, 2006

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Hoje vi o sonho que caminha com os pés descalços sobre o imenso deserto do meu coração. Hoje vi-o, nítido e resplandecente, mas fugitivo como uma miragem. Tentei tocar-lhe, mas os meus pés (que não sabem andar descalços) tropeçaram na realidade e trouxeram-me de volta à aridez da minha vida.

 

Talayen

Viciante vício de doer Setembro 28, 2006

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A minha dor é a droga

Que me provoca.

É o álcool

Que os meus sentidos inflama

E os meus fantasmas evoca,

É tudo o que me inebria

E todos choca. 

É a minha dor que oferece pedaços da minha alma,

Que a corrompe e desperdiça,

Que o meu corpo corrói

E por dentro me destrói.

É o vício que me inspira

Tudo me tira e muito me devolve,

É o sexo da mente, o amor da vida. 

É uma loucura evidente

Que me expande a mente

Naturalmente. 

Inflamable Soul

A Boneca Partida Setembro 18, 2006

Posted by lado oculto in Escritas.
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Um lindo vestido branco
debruado de cetim rosado
chapéu largo de rendas finas
sobre os olhos um véu rasgado
um olhar diferente das outras meninas 

É a minha boneca partida
de lábios finos vitorianos
pele de porcelana chinesa
de olhos verdes quase humanos
de olhos lindos de tanta tristeza 

É a minha preferida
aquela que eu mais adoro
aquela a quem eu imploro
quando se abre mais uma ferida
a minha Boneca Partida

Cabelos louros e sedosos
espraiam-se sobre as suas costas
cheiram a alfazema e rosmaninho
abafam as minhas emoções decompostas
enleiam-me os medos com carinho

Nada me causaria mais desgosto
que perder a minha companheira
que alguém a descobrisse e levasse
que alguém de mim a tirasse
que a levassem da minha beira

Esta noite a lua nos mostra
o lado negro que teima em esconder
e a minha boneca olha para mim e anui
sabe o que lhe vai acontecer
é nestas noites em que tudo flui 

Dança bonequinha, dança para mim
roda o teu vestido, dança sem fim
tira o chapelito, faz-me um aceno
olha-me com os teu olhos de puro veneno
e agita teu corpo de porte pequeno 

Por vezes a minha bonequinha chora
de saudade, de dor, ou outra maleita
vê-a assim toda desfeita
lembra-me a noite de luar perfeito
quando te fui buscar ao teu leito

Numa casa de bonecas lá estavas tu
dormindo aconchegada entre fadas e fantasias
morri de amores por ti nesse momento
peguei no teu corpinho com as minhas mãos fria
s
e deixei no teu lugar a imensidão do sofrimento 

Olha, boneca, é a tua mamã na TV?
Diz que vai fazer tudo para te ter de volta
implora que lhe devolvam a sua criança
afirma que apesar da angústia e revolta
jamais se recusa a abandonar toda a esperança 

Será que a mamã ainda se lembra
agora que passou tanto tempo?
Será boneca que se voltasses ao ninho
serias lembrada com o mesmo alento?
Deixavas-me a mim aqui tão sozinho?

Porque insistes em lutar para fugir de mim?
Queres que te deixe aqui abandonada?
Põe o teu vestido, está na altura de dançar
Coloca o chapéu de tela rasgada
chegou a altura de teu destino aceitar

Os anos passam, roçando a loucura
eu fico a olhar para ti, em completo deleite
nem ouso tocar, conspurcar a doçura
de teus cabelos presos com um enfeite
e da tua face perfeita de plena candura
 
 

Sei que a beleza é perecível
mas não em ti, adorado brinquedo
no teu olhar distante, intransponível
perco a noção da dor e do medo
e esqueço para sempre o acto terrivel 
 

Queria-te tão perfeita, rosa de jardim
queria-te linda, beleza sem fim
uma bonequinha perfeita de colecção
um amor grandioso, eterna paixão
que outra alternativa teria eu, então? 
 

Se tens as pernas para de mim fugires
se esses braços são para escapar
se a boca perfeita não é para sorrires
quanto te prometo para sempre amar
terei, boneca, que me assegurar
 

Assim o que antes era perfeito
e a beleza que estava tão garantida
ficou agora algo desfeito
resta-me contemplar a prometida
A minha querida boneca partida. 

De Profundis
(para Natasha, ex-boneca)
 

Crescente Setembro 16, 2006

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Desenha-se no céu o crescente

da lua que teima em caminhar

para o redondo inexorável do pleno

– intangível ao meu esforço.

 

Caminho crescente persistente

como a lua peregrina obstinada

que nunca desiste, insiste, insiste

– caminho sem rumo e crescente velada.

 

Talayen

Setembro 11, 2006

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O Outro Lado não é um Outro, mas o mais íntimo de nós próprios…o que nos habita…o que nos arremessa contra as nossas próprias paredes. O Outro Lado é Este, este…este que espreita do lado de .

Dusk

Ausente Setembro 6, 2006

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Rezo por mim própria, pois sei que não o posso esconder por muito mais. Escondo a minha cara envergonhada e transvazo de angústia e pesar. Não há mais nada a negar nem a defender. A desolação esfumou a esperança que se entretinha a assomar por entre as caras dos fantasmas dos meus medos. Agora quem me vai segurar? Não há nada que eu possa fazer que não o tenha já feito, nada que eu possa ver, apenas presenciar enquanto tudo se desmorona. Ninguém para me dizer o que fazer, isto não tem um fim se eu não compreender que não posso retornar a fazê-o. Não há palavras que me saiam, não há uma verdade que eu consiga ver. Resta-me deixar isto acabar, sabendo em consciência que não posso refazer o que foi desfeito. Sabendo que não há reinicio. Sabendo que não há nada à minha espera do outro lado.

(…)

Mas o que estou a dizer? Ah, que estupidez, que vontade de rir!… Terminar? Coitada, como se fosse capaz! Ri, sorri, cura. Caminha comigo e canta-me ao ouvido. Sou invisível e não posso desaparecer mais que isto. Se me quiseres abandonar, se me deixares, eu seguirei, sempre. Se ousares caminhar para longe serei o som dos teus passos. Continuarás a tropeçar em cordas invisíveis e a escutar gargalhadas de escárnio e ilusão.

(…)

O mundo é o meu caixote de lixo, a minha poça de lama. A minha banheira de medo e mentira. Há um sonho dentro de outro sonho que não me deixa dormir quando adormeço. Aqui estou sozinha quando estás comigo. Sou o meu próprio deus, juíz e carrasco.

(…)

Porque não decides por mim? Porque não vens a mim, minha querida? Deixa-te enlear pelos meus braços, beijar pela minha boca, tocar pelos meus cabelos e embalar pela minha voz. Dorme bebé, estás a salvo aqui, dentro do círculo de luz, dentro do Sol que amanhece, dentro da minha infinita piedade e dormência. Dentro de toda a demência. Lento, ainda mais lento, o meu coração relaxa e inunda o frágil corpo de morfina e …

(…)

Mas será que não há verdadeiro silêncio neste mundo? Será que só me restam os ensurdecedores silêncios abafados de átrio de hospital, de uma imensidão de estranhos que se reune ao acaso para ver este paranóico espectáculo? Antes queria estar só… porque não me deixam estar só!!!… 

– Doutor, venha depressa. Ela está outra vez a revirar os olhos e com convulsões!

– Enfermeira, mostre-me a ficha da paciênte por favor… Humm, aumentem a dose de Neotropazine em 10 mg/h. Mantenha-me informado do estado da paciente.

– Sim Doutor, assim o farei, fique descansado. 

(…)

 Vogo num mar sem ondas, apenas uma ligeira brisa na minha face rosada pelo pálido luar. A noite engole-me e leva-me com ela para longe, para o outro lado da Lua. Escuto o som do mar e do espaço que me envolve. Sinto a água a respingar nos meus dedos à medida que os arrasto pela superfície. Porque estou aqui? Tão distante de mim mesma, o meu coração está tão triste… O que faço aqui? Porque me sinto tão abandonada..? Porque me ardem as lágrimas que escorrem dos meus olhos feridos? O que faço aqui?

(…)

Um poder maior saberá o que foi e o que será de mim. Espero pacientemente e reflicto no que isto significa para mim. Nunca ninguém sabera de mim, só eu sei o que é estar tão só. O fim estará próximo ou a uma eternidade de distância?…. aaahhh….

(…) Lembro-me de ti, antes do dia que me marcou. Sonho contigo a ser criança e a brincar, a andar descalça pela relva e a apanhar as borboletas com o teu chapeu. Sonho que sorrias para mim e me enviavas beijos pelo ar. Sonho que eras linda e eu era feliz.

(…)

Não o faças, por favor. Não fiques assim triste e doente. Não olhes para mim com os olhos vazios de fé e vontade de viver. E dar-te-ei a fé e a razão, farei com que te sintas mais brilhante do que o Sol. Lembrar-te-ei que és especial, que és única e valiosa. Não me deixes aqui sozinha, fica comigo ou leva-me contigo.

(…)

Tu nunca nasceste e eu amei-te mais do que a mim própria. Lembrar-me-ei sempre da tua cara que nunca vi, da tua pele que nunca senti, do teu amor que me enchia de força e vontade de viver… para sempre! Amo-te meu bebé, amo-te tanto que jamais conseguirei voltar a sentir seja o que for, a não ser dor e eterna saudade. Nada mais há para mim, nada mais me prende. Quero ir para junto de ti e ficar contigo, de mãos dadas a vogar no infinito.

(…)

Puta de merda, cala-te e para de choramingar. Quem te oiça até vai dizer que não gostaste do que fizemos. Adoraste cada instante, cada momento em que estive dentro de ti. Tu sabias que estavas irresistível, linda, apetecível, a caminhar sorridente e deslumbrante, exibido despudoradamente o teu ventre prenhe. Estavas tanto a pedi-las… 

– Doutor, tem que vir já! As convulsões estão cada vez piores e os gritos são de enloquecer. Acho que ela está a morrer de desespero!

– Pobre coitada. Os casos de violação são sempre complicadissimos. Ter perdido o bebé deixou-a profundamente traumatizada. Aumentou a dose de Neotropazine como lhe disse? 

 De Profundis

O Outro Lado da Lua Setembro 6, 2006

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A ausência dói: a sombra do dia carrega o sobrolho e a luz da noite obscurece o pensamento. Palavras esquizofrénicas morrem de sede. Ecos incitam-nos a regá-las: n’ O Outro Lado da Lua. O regresso transpirado e desejosos de cuspir sementes apodrecidas na cave das ideias. Não morremos: no fundo «There is no dark side of the Moon really… matter of fact it’s all dark».  

Inner Silence