In Corpore (Parte II) Outubro 3, 2006
Posted by lado oculto in Escritas.trackback
- Mamã, porque temos que morrer?
- Oh filhote, da mesma maneira me podias perguntar porque temos que nascer. A morte é apenas uma etapa de um grande ciclo, é como o conto da libelinha, lembras-te?
- O conto da libelinha..? Ah, já sei, ela nasce de um ovo e é uma larva que vive dentro de água. Cresce e quando chega a hora transforma-se, é esse?
- Sim querido, é esse mesmo. A larva tem que sair da água para morrer como larva. Só assim pode ‘nascer’ o adulto, uma libelinha colorida e esvoaçante.
- Mas e a libelinha, depois de adulto, o que lhe acontece?
- Voa, encontra outras libelinhas, produzem mais ovos para nascerem mais larvas e…
- .. e morrem! Eu sei que morrem, já encontrei uma morta no nosso jardim! A vida delas também acaba mãe, eu sei que sim…
- Morre de facto a libelinha, mas algo perdura e o ciclo da vida continua.
- E se o mundo mudar tanto que não possam existir mais larvas? Se não houver mais rios e charcos? Se não houver espaço para as libelinhas larvas, se não houver Sol para as aquecer, ou se o Sol for tão quente que as coza vivas, e se…
- Calma, não fiques assim tão ansioso. Dentro de algumas horas o Sol nascerá novamente e verás que é de novo dia. E a esse seguir-se-à outro e outro. E mesmo quando eu e tu já não estivermos aqui, com este corpo, estes braços e mãos, estes olhos e boca, ninguém sabe onde poderemos estar e sobre que formas. Há quem diga que nos metamorfoseamos em anjos com o avançar dos tempos. Há que ter paciência e viver sempre a praticar o bem e a vivenciar o amor. Assim saberás que um dia te poderás tornar um anjo.
- Mamã, e quem não sente amor nem pratica o bem?
- A esses meu filho, temo que..
Novo estrondo. Despertas de um sonho que te parece tão irreal quanto a realidade que agora vives e tendes a aceitar como sendo incontornável. A tua pele está agora rija e muito lisa. Já não sentes nada que se assemelhe a uma língua, uma boca, um coração ou um pénis. A escuridão é total, a privação de sentidos já não te aflige tanto. Dentro de ti sentes que tudo vibra, desliza, pulsa, mexe e se rearranja. O silvo persiste na tua cabeça, mas deixou de ser assustador para se tornar apenas ruído de fundo. Não te importas e adormeces novamente.
(…continua para III e última parte)
De Profundis
a eterna questao da vida depois da morte, será mesmo um ciclo? deixaremos mesmo de nos importar? gosto de seguir o carpe diem mas muitas vezes quando penso no que seguirá, apenas uma coisa me ocorre: o vazio.