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In Corpore (Parte I) Outubro 1, 2006

Posted by lado oculto in Escritas.
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…E levantas a cabeça e olhas a toda a tua volta.Um estranho sentimento de desordem e uma dor de cabeça instalam-se à medida que os empoeirados globos oculares se abrem e vislumbram um mundo antes tão familiar.

Não sentes qualquer sabor, a língua encortiçada e gretada ocupa quase toda a cavidade oral e voga num aparente vazio de veludo, fruto da ausência de quaisquer dentes ou lábios, apenas uma greta calejada onde estavas certo haver uma boca.

Esperas conseguir-te levantar e acabar já com este horrível pesadelo… mas as mãos não parecem responder aos teus pedidos de socorro, estão dormentes, estão presas, estão… onde? Onde foram parar os teus braços, as tuas mãos, as tuas pernas?? Já não estás horrorizado, estás completamente em pânico!

De um modo absolutamente inesperado, consegues sentir todo o teu corpo fusiforme a contorcer-se em convulsões suaves e ritmadas. Estás a arder de febre, mas nem pinga de suor. Os teus poros emitem um espesso líquido esbranquiçado que à medida que recobre toda a superfície do teu corpo emite uma luminosidade lúgubre e doentia, tal como aqueles autocolantes de monstros que brilhavam no escuro que colavas na parede do teu quarto quando eras pequeno. Há quanto tempo terá sido isso…? Por um momento sentiste-te a salvo, de volta à infância, de volta a um mundo de conforto, familiar, seguro…

Que foi isto?! Um súbito ruído de metal pesado a deslizar bruscamente desperta-te da tua fantasia. Jurarias que o teu coração disparou, mas não o sentes no peito. É no teu ventre que pulsa um tubo nodoso que espalha sangue e linfa por entre os orgãos e os tecidos que te compõem. O líquido viscoso que de ti emana está mais esverdeado. Agora sim, estás tal e qual os monstros da tua infância. E estás tão preso quanto eles, imóvel, manietado, com pulsões e contorções cada vez mais dolorosas a percorrer o teu corpo dormente e esponjoso.

Queres ver o que se passa, mas os teus olhos estão cada vez mais secos e a visão mais turva, uma cortina branca impede a tua retina de absorver informação. Estás praticamente cego. Sentes que mais uns minutos (horas? Dias? Qual o ritmo do tempo?) e estás completamente desprovido de sentidos. Resta-te um ruido sibilante que crepita na tua cabeça, um sopro agreste que te embala para um sono do qual não saberás se irás sair.

O mundo tornou-se estéril, estático, estranho, estanque.

Será isto a morte?(…) 

(continua…)

De Profundis

Comentários»

1. Talayen - Outubro 1, 2006

Será que a presença aguda de uma consciência de si precede a morte?

2. Dusk - Outubro 1, 2006

E será que essa eventual consciência de si não ocorre na mais cruel das solidões? Se pensarmos que a morte é precedida dessa clarividência, então o momento derradeiro em que tomamos consciência de nós mesmo, estamos completamente sós, já que essa visão/sentido do eu é de todo incomunicável, como se estivessemos presos de nós mesmos, como se fossemos o cárcere do nosso próprio Eu…
E, porque não, não haver nada disso…nada de consciência do eu, nada de momento que precede a morte…apenas e só uma passagem, como uma espécie de desmaio….para o Nada….?
Ui…é melhor ficar por aqui ou ainda prego uma valente seca a quem por cá nos vem aturar!!!!