In Corpore (III e última parte) Outubro 6, 2006
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Flashes de imagens surgem repentinamente na tua cabeça e fazem disparar os níves de adrenalina e desconforto para patamares nunca antes experimentados. É como se um projectista louco tivesse decidido expor toda a tua vida em frames de milésimos de segundo, alternados e caóticos, desprovidos de qualquer lógica aparente. Mas tu sabes que é o personagem principal.
E com o avançar do filme vais começando a compreender tudo o que se está a passar. Descobres então que nunca acreditaste na tua mãe, na história dos anjos e das libelinhas. Abdicaste da visão segura da tua progenitora e optaste pelo medo e engano. Desde então que compreendeste que para não morrer terias que controlar, controlar cada emoção e pensamento. Calcular cada passo e assumir que tudo é válido para garantir o teu mais precioso bem, o teu domínio, a tua vida. Cedo descobriste como mentir, manipular, distorcer, enganar(-te), iludir(-te), que usar e abusar são as melhores ferramentas para persistir sobre os outros. Habituaste-te à mesquinhez e à submissão cuidadosamente planeada, não fosse qualquer animal mais bruto por em perigo todo o teu plano ao destruir a tua carapaça, o teu corpo ou o teu espírito. E com o avançar da idade veio a ganância, a ambição, a gula e a luxúria. Sexo, dinheiro, poder. Dominar e violentar, tornaram-se os teus jogos favoritos. Qual larva de libelinha qual quê, eras um tubarão, um ser de violência súbtil, fria e sem escrúpulos. Os desejos eram para atender, já, aqui e a qualquer preço. A morte não iria levar a melhor, pois tinhas cada vez mais e mais poder, e estavas quase a descobrir a maneira de a enganar, de convencer a velha ceifeira que eras demasiado importante para seres aniquilado e reduzido a nada. Nem libelinha nem anjo, o teu destino seria outro!
Um lancinante rasgão abre-se no teu peito e resgata-te para o mundo negro onde te encontras. A dor que percorre o teu corpo é insuportável, o silvo transformou-se em guinchos e urros de desespero. Afinal nada sentir era uma benção, porque agora abrem-se novos buracos na tua cara. Uma luz vermelha e tremeluzente faz-te compreender que tens novamente olhos, e num esforço desvairado rompes uma nova cavidade por onde consegues projectar uma lingua aguda e longa. A tua boca enche-se de espuma ensaguentada à medida que os teus dentes afiados irrompem pela carne das gengivas. O teu peito explode com um bater violento e ritmado que denuncia o teu novo coração. Começas a contorcer-te e a despedaçar a antiga pele. Irrompem dois braços, compridos e glabros, terminados com mãos de dedos finos de garras afiadas. Ao medo sobrepõe-se a aceleração e o extase. Estás quase completo! Surgem as pernas e pés, que afastam uns últimos restos de casulo que ainda persistia agarrado. Não sabes o que se passa, mas sentes o sangue a acelerar nas tuas veias. Sentes-te a renascer! Num movimento espasmódico o teu corpo contorce-se e enrola-se para dentro. As dores aumentam vertiginosamente e cais. Numa nova descoberta decides forçar o ar para fora dos pulmões e tentas gritar, mas só sai um abafado rosnar, que progressivamente se transforma num urro de animal. E eis que elas surgem! Ah, em todo o seu esplendor e glória, erguem-se duas asas das tuas costas, como velas num navio de guerra, espraiam-se os estandartes a todo o pano. Cada uma maior que o comprimento do teu corpo, esntende-se ao comprido e exibem-se em toda a sua glória.A tua visão torna-se clara e perfeita.
A porta da cela abre-se e tens alguém à tua espera. Um enorme e gordo demónio cinzento e de olhos amarelos aguarda o recém formado novo membro do enxame de Arachula. Sorris e aceitas o teu destino. Afinal mamã, tinhas razão. É no mundo Humano que determinamos que larva somos. E é a morte que nos liberta e nos solta para um mundo maior. “Quem me der que visses agora as asas da tua libelinha mamã, quem me dera…”
De Profundis
In Corpore (Parte II) Outubro 3, 2006
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- Mamã, porque temos que morrer?
- Oh filhote, da mesma maneira me podias perguntar porque temos que nascer. A morte é apenas uma etapa de um grande ciclo, é como o conto da libelinha, lembras-te?
- O conto da libelinha..? Ah, já sei, ela nasce de um ovo e é uma larva que vive dentro de água. Cresce e quando chega a hora transforma-se, é esse?
- Sim querido, é esse mesmo. A larva tem que sair da água para morrer como larva. Só assim pode ‘nascer’ o adulto, uma libelinha colorida e esvoaçante.
- Mas e a libelinha, depois de adulto, o que lhe acontece?
- Voa, encontra outras libelinhas, produzem mais ovos para nascerem mais larvas e…
- .. e morrem! Eu sei que morrem, já encontrei uma morta no nosso jardim! A vida delas também acaba mãe, eu sei que sim…
- Morre de facto a libelinha, mas algo perdura e o ciclo da vida continua.
- E se o mundo mudar tanto que não possam existir mais larvas? Se não houver mais rios e charcos? Se não houver espaço para as libelinhas larvas, se não houver Sol para as aquecer, ou se o Sol for tão quente que as coza vivas, e se…
- Calma, não fiques assim tão ansioso. Dentro de algumas horas o Sol nascerá novamente e verás que é de novo dia. E a esse seguir-se-à outro e outro. E mesmo quando eu e tu já não estivermos aqui, com este corpo, estes braços e mãos, estes olhos e boca, ninguém sabe onde poderemos estar e sobre que formas. Há quem diga que nos metamorfoseamos em anjos com o avançar dos tempos. Há que ter paciência e viver sempre a praticar o bem e a vivenciar o amor. Assim saberás que um dia te poderás tornar um anjo.
- Mamã, e quem não sente amor nem pratica o bem?
- A esses meu filho, temo que..
Novo estrondo. Despertas de um sonho que te parece tão irreal quanto a realidade que agora vives e tendes a aceitar como sendo incontornável. A tua pele está agora rija e muito lisa. Já não sentes nada que se assemelhe a uma língua, uma boca, um coração ou um pénis. A escuridão é total, a privação de sentidos já não te aflige tanto. Dentro de ti sentes que tudo vibra, desliza, pulsa, mexe e se rearranja. O silvo persiste na tua cabeça, mas deixou de ser assustador para se tornar apenas ruído de fundo. Não te importas e adormeces novamente.
(…continua para III e última parte)
De Profundis
A’haeraa Outubro 1, 2006
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Deito-me na banheira e deixo-me inundar pela água que corre dos canos com uma violência inusitada. A água entra-me pela alma adentro, preenche os vazios deixados por um fantasma antigo, purifica-me. Fecho os olhos e sinto-me acariciada; sinto-me no meu elemento. Suavemente, uma mão invisível acaricia os meus cabelos e torno-me ondulante como uma alga, harmoniosa como uma corrente marinha. Sou compelida a permanecer debaixo de água por aquela mão que, docemente, me empurra para o fundo da banheira e para o fundo de mim. Ouço, ao fundo, a voz-guia que me canta para fora de mim… e vejo-me do alto, como se o meu corpo não fosse mais que uma pedra atirada para um lago. Olho o meu reflexo, mas não me reconheço na imagem que as águas que me sugam para o Nada me devolvem. A mão incorpórea leva-me para longe, e o meu invólucro não é mais que um pontinho nas imensas águas de um rio.
Estiro-me até sentir que o mais longínquo ponto de mim toca o infinito… e sei que a mão invisível pinta no meu ventre uma lua cheia. Azul.
Sobre cada pedacinho de mim, uma palavra desconhecida, uma palavra de fogo que me faz arder de impaciência. Nas paredes, sombras dançam lentamente ao som da voz-guia que me (en)canta para fora, sempre para fora…
De súbito, a voz cala-se. Abro os olhos de rompante e vejo a água transbordante que se espalha pelo chão. A minha concha, vazia, jaz no fundo da banheira e deixa-se espalhar juntamente com o líquido. Pestanejo. Sou líquida.
Ergo o ventre, num espasmo, e coloco as mãos sobre a ferida invisível da lua azul pintada a fogo em mim.
A’haeraa.
Levanto-me, escorrendo, e navego em direcção ao porto de mim.
Talayen
In Corpore (Parte I) Outubro 1, 2006
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…E levantas a cabeça e olhas a toda a tua volta.Um estranho sentimento de desordem e uma dor de cabeça instalam-se à medida que os empoeirados globos oculares se abrem e vislumbram um mundo antes tão familiar.
Não sentes qualquer sabor, a língua encortiçada e gretada ocupa quase toda a cavidade oral e voga num aparente vazio de veludo, fruto da ausência de quaisquer dentes ou lábios, apenas uma greta calejada onde estavas certo haver uma boca.
Esperas conseguir-te levantar e acabar já com este horrível pesadelo… mas as mãos não parecem responder aos teus pedidos de socorro, estão dormentes, estão presas, estão… onde? Onde foram parar os teus braços, as tuas mãos, as tuas pernas?? Já não estás horrorizado, estás completamente em pânico!
De um modo absolutamente inesperado, consegues sentir todo o teu corpo fusiforme a contorcer-se em convulsões suaves e ritmadas. Estás a arder de febre, mas nem pinga de suor. Os teus poros emitem um espesso líquido esbranquiçado que à medida que recobre toda a superfície do teu corpo emite uma luminosidade lúgubre e doentia, tal como aqueles autocolantes de monstros que brilhavam no escuro que colavas na parede do teu quarto quando eras pequeno. Há quanto tempo terá sido isso…? Por um momento sentiste-te a salvo, de volta à infância, de volta a um mundo de conforto, familiar, seguro…
Que foi isto?! Um súbito ruído de metal pesado a deslizar bruscamente desperta-te da tua fantasia. Jurarias que o teu coração disparou, mas não o sentes no peito. É no teu ventre que pulsa um tubo nodoso que espalha sangue e linfa por entre os orgãos e os tecidos que te compõem. O líquido viscoso que de ti emana está mais esverdeado. Agora sim, estás tal e qual os monstros da tua infância. E estás tão preso quanto eles, imóvel, manietado, com pulsões e contorções cada vez mais dolorosas a percorrer o teu corpo dormente e esponjoso.
Queres ver o que se passa, mas os teus olhos estão cada vez mais secos e a visão mais turva, uma cortina branca impede a tua retina de absorver informação. Estás praticamente cego. Sentes que mais uns minutos (horas? Dias? Qual o ritmo do tempo?) e estás completamente desprovido de sentidos. Resta-te um ruido sibilante que crepita na tua cabeça, um sopro agreste que te embala para um sono do qual não saberás se irás sair.
O mundo tornou-se estéril, estático, estranho, estanque.…
Será isto a morte?(…)
(continua…)
De Profundis