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A Boneca Partida Setembro 18, 2006

Posted by lado oculto in Escritas.
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Um lindo vestido branco
debruado de cetim rosado
chapéu largo de rendas finas
sobre os olhos um véu rasgado
um olhar diferente das outras meninas 

É a minha boneca partida
de lábios finos vitorianos
pele de porcelana chinesa
de olhos verdes quase humanos
de olhos lindos de tanta tristeza 

É a minha preferida
aquela que eu mais adoro
aquela a quem eu imploro
quando se abre mais uma ferida
a minha Boneca Partida

Cabelos louros e sedosos
espraiam-se sobre as suas costas
cheiram a alfazema e rosmaninho
abafam as minhas emoções decompostas
enleiam-me os medos com carinho

Nada me causaria mais desgosto
que perder a minha companheira
que alguém a descobrisse e levasse
que alguém de mim a tirasse
que a levassem da minha beira

Esta noite a lua nos mostra
o lado negro que teima em esconder
e a minha boneca olha para mim e anui
sabe o que lhe vai acontecer
é nestas noites em que tudo flui 

Dança bonequinha, dança para mim
roda o teu vestido, dança sem fim
tira o chapelito, faz-me um aceno
olha-me com os teu olhos de puro veneno
e agita teu corpo de porte pequeno 

Por vezes a minha bonequinha chora
de saudade, de dor, ou outra maleita
vê-a assim toda desfeita
lembra-me a noite de luar perfeito
quando te fui buscar ao teu leito

Numa casa de bonecas lá estavas tu
dormindo aconchegada entre fadas e fantasias
morri de amores por ti nesse momento
peguei no teu corpinho com as minhas mãos fria
s
e deixei no teu lugar a imensidão do sofrimento 

Olha, boneca, é a tua mamã na TV?
Diz que vai fazer tudo para te ter de volta
implora que lhe devolvam a sua criança
afirma que apesar da angústia e revolta
jamais se recusa a abandonar toda a esperança 

Será que a mamã ainda se lembra
agora que passou tanto tempo?
Será boneca que se voltasses ao ninho
serias lembrada com o mesmo alento?
Deixavas-me a mim aqui tão sozinho?

Porque insistes em lutar para fugir de mim?
Queres que te deixe aqui abandonada?
Põe o teu vestido, está na altura de dançar
Coloca o chapéu de tela rasgada
chegou a altura de teu destino aceitar

Os anos passam, roçando a loucura
eu fico a olhar para ti, em completo deleite
nem ouso tocar, conspurcar a doçura
de teus cabelos presos com um enfeite
e da tua face perfeita de plena candura
 
 

Sei que a beleza é perecível
mas não em ti, adorado brinquedo
no teu olhar distante, intransponível
perco a noção da dor e do medo
e esqueço para sempre o acto terrivel 
 

Queria-te tão perfeita, rosa de jardim
queria-te linda, beleza sem fim
uma bonequinha perfeita de colecção
um amor grandioso, eterna paixão
que outra alternativa teria eu, então? 
 

Se tens as pernas para de mim fugires
se esses braços são para escapar
se a boca perfeita não é para sorrires
quanto te prometo para sempre amar
terei, boneca, que me assegurar
 

Assim o que antes era perfeito
e a beleza que estava tão garantida
ficou agora algo desfeito
resta-me contemplar a prometida
A minha querida boneca partida. 

De Profundis
(para Natasha, ex-boneca)