Deserto Setembro 28, 2006
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Hoje vi o sonho que caminha com os pés descalços sobre o imenso deserto do meu coração. Hoje vi-o, nítido e resplandecente, mas fugitivo como uma miragem. Tentei tocar-lhe, mas os meus pés (que não sabem andar descalços) tropeçaram na realidade e trouxeram-me de volta à aridez da minha vida.
Talayen
Viciante vício de doer Setembro 28, 2006
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A minha dor é a droga
Que me provoca.
É o álcool
Que os meus sentidos inflama
E os meus fantasmas evoca,
É tudo o que me inebria
E todos choca.
É a minha dor que oferece pedaços da minha alma,
Que a corrompe e desperdiça,
Que o meu corpo corrói
E por dentro me destrói.
É o vício que me inspira
Tudo me tira e muito me devolve,
É o sexo da mente, o amor da vida.
É uma loucura evidente
Que me expande a mente
Naturalmente.
Inflamable Soul
A Boneca Partida Setembro 18, 2006
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Um lindo vestido branco
debruado de cetim rosado
chapéu largo de rendas finas
sobre os olhos um véu rasgado
um olhar diferente das outras meninas
É a minha boneca partida
de lábios finos vitorianos
pele de porcelana chinesa
de olhos verdes quase humanos
de olhos lindos de tanta tristeza
É a minha preferida
aquela que eu mais adoro
aquela a quem eu imploro
quando se abre mais uma ferida
a minha Boneca Partida
Cabelos louros e sedosos
espraiam-se sobre as suas costas
cheiram a alfazema e rosmaninho
abafam as minhas emoções decompostas
enleiam-me os medos com carinho
Nada me causaria mais desgosto
que perder a minha companheira
que alguém a descobrisse e levasse
que alguém de mim a tirasse
que a levassem da minha beira
Esta noite a lua nos mostra
o lado negro que teima em esconder
e a minha boneca olha para mim e anui
sabe o que lhe vai acontecer
é nestas noites em que tudo flui
Dança bonequinha, dança para mim
roda o teu vestido, dança sem fim
tira o chapelito, faz-me um aceno
olha-me com os teu olhos de puro veneno
e agita teu corpo de porte pequeno
Por vezes a minha bonequinha chora
de saudade, de dor, ou outra maleita
vê-a assim toda desfeita
lembra-me a noite de luar perfeito
quando te fui buscar ao teu leito
Numa casa de bonecas lá estavas tu
dormindo aconchegada entre fadas e fantasias
morri de amores por ti nesse momento
peguei no teu corpinho com as minhas mãos fria
se deixei no teu lugar a imensidão do sofrimento
Olha, boneca, é a tua mamã na TV?
Diz que vai fazer tudo para te ter de volta
implora que lhe devolvam a sua criança
afirma que apesar da angústia e revolta
jamais se recusa a abandonar toda a esperança
Será que a mamã ainda se lembra
agora que passou tanto tempo?
Será boneca que se voltasses ao ninho
serias lembrada com o mesmo alento?
Deixavas-me a mim aqui tão sozinho?
Porque insistes em lutar para fugir de mim?
Queres que te deixe aqui abandonada?
Põe o teu vestido, está na altura de dançar
Coloca o chapéu de tela rasgada
chegou a altura de teu destino aceitar
Os anos passam, roçando a loucura
eu fico a olhar para ti, em completo deleite
nem ouso tocar, conspurcar a doçura
de teus cabelos presos com um enfeite
e da tua face perfeita de plena candura
Sei que a beleza é perecível
mas não em ti, adorado brinquedo
no teu olhar distante, intransponível
perco a noção da dor e do medo
e esqueço para sempre o acto terrivel
Queria-te tão perfeita, rosa de jardim
queria-te linda, beleza sem fim
uma bonequinha perfeita de colecção
um amor grandioso, eterna paixão
que outra alternativa teria eu, então?
Se tens as pernas para de mim fugires
se esses braços são para escapar
se a boca perfeita não é para sorrires
quanto te prometo para sempre amar
terei, boneca, que me assegurar
Assim o que antes era perfeito
e a beleza que estava tão garantida
ficou agora algo desfeito
resta-me contemplar a prometida
A minha querida boneca partida.
De Profundis
(para Natasha, ex-boneca)
Crescente Setembro 16, 2006
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Desenha-se no céu o crescente
da lua que teima em caminhar
para o redondo inexorável do pleno
- intangível ao meu esforço.
Caminho crescente persistente
como a lua peregrina obstinada
que nunca desiste, insiste, insiste
- caminho sem rumo e crescente velada.
Talayen
Setembro 11, 2006
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O Outro Lado não é um Outro, mas o mais íntimo de nós próprios…o que nos habita…o que nos arremessa contra as nossas próprias paredes. O Outro Lado é Este, este…este que espreita do lado de Cá.
Dusk
Ausente Setembro 6, 2006
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Rezo por mim própria, pois sei que não o posso esconder por muito mais. Escondo a minha cara envergonhada e transvazo de angústia e pesar. Não há mais nada a negar nem a defender. A desolação esfumou a esperança que se entretinha a assomar por entre as caras dos fantasmas dos meus medos. Agora quem me vai segurar? Não há nada que eu possa fazer que não o tenha já feito, nada que eu possa ver, apenas presenciar enquanto tudo se desmorona. Ninguém para me dizer o que fazer, isto não tem um fim se eu não compreender que não posso retornar a fazê-o. Não há palavras que me saiam, não há uma verdade que eu consiga ver. Resta-me deixar isto acabar, sabendo em consciência que não posso refazer o que foi desfeito. Sabendo que não há reinicio. Sabendo que não há nada à minha espera do outro lado.
(…)
Mas o que estou a dizer? Ah, que estupidez, que vontade de rir!… Terminar? Coitada, como se fosse capaz! Ri, sorri, cura. Caminha comigo e canta-me ao ouvido. Sou invisível e não posso desaparecer mais que isto. Se me quiseres abandonar, se me deixares, eu seguirei, sempre. Se ousares caminhar para longe serei o som dos teus passos. Continuarás a tropeçar em cordas invisíveis e a escutar gargalhadas de escárnio e ilusão.
(…)
O mundo é o meu caixote de lixo, a minha poça de lama. A minha banheira de medo e mentira. Há um sonho dentro de outro sonho que não me deixa dormir quando adormeço. Aqui estou sozinha quando estás comigo. Sou o meu próprio deus, juíz e carrasco.
(…)
Porque não decides por mim? Porque não vens a mim, minha querida? Deixa-te enlear pelos meus braços, beijar pela minha boca, tocar pelos meus cabelos e embalar pela minha voz. Dorme bebé, estás a salvo aqui, dentro do círculo de luz, dentro do Sol que amanhece, dentro da minha infinita piedade e dormência. Dentro de toda a demência. Lento, ainda mais lento, o meu coração relaxa e inunda o frágil corpo de morfina e …
(…)
Mas será que não há verdadeiro silêncio neste mundo? Será que só me restam os ensurdecedores silêncios abafados de átrio de hospital, de uma imensidão de estranhos que se reune ao acaso para ver este paranóico espectáculo? Antes queria estar só… porque não me deixam estar só!!!…
- Doutor, venha depressa. Ela está outra vez a revirar os olhos e com convulsões!
- Enfermeira, mostre-me a ficha da paciênte por favor… Humm, aumentem a dose de Neotropazine em 10 mg/h. Mantenha-me informado do estado da paciente.
- Sim Doutor, assim o farei, fique descansado.
(…)
Vogo num mar sem ondas, apenas uma ligeira brisa na minha face rosada pelo pálido luar. A noite engole-me e leva-me com ela para longe, para o outro lado da Lua. Escuto o som do mar e do espaço que me envolve. Sinto a água a respingar nos meus dedos à medida que os arrasto pela superfície. Porque estou aqui? Tão distante de mim mesma, o meu coração está tão triste… O que faço aqui? Porque me sinto tão abandonada..? Porque me ardem as lágrimas que escorrem dos meus olhos feridos? O que faço aqui?
(…)
Um poder maior saberá o que foi e o que será de mim. Espero pacientemente e reflicto no que isto significa para mim. Nunca ninguém sabera de mim, só eu sei o que é estar tão só. O fim estará próximo ou a uma eternidade de distância?…. aaahhh….
(…) Lembro-me de ti, antes do dia que me marcou. Sonho contigo a ser criança e a brincar, a andar descalça pela relva e a apanhar as borboletas com o teu chapeu. Sonho que sorrias para mim e me enviavas beijos pelo ar. Sonho que eras linda e eu era feliz.
(…)
Não o faças, por favor. Não fiques assim triste e doente. Não olhes para mim com os olhos vazios de fé e vontade de viver. E dar-te-ei a fé e a razão, farei com que te sintas mais brilhante do que o Sol. Lembrar-te-ei que és especial, que és única e valiosa. Não me deixes aqui sozinha, fica comigo ou leva-me contigo.
(…)
Tu nunca nasceste e eu amei-te mais do que a mim própria. Lembrar-me-ei sempre da tua cara que nunca vi, da tua pele que nunca senti, do teu amor que me enchia de força e vontade de viver… para sempre! Amo-te meu bebé, amo-te tanto que jamais conseguirei voltar a sentir seja o que for, a não ser dor e eterna saudade. Nada mais há para mim, nada mais me prende. Quero ir para junto de ti e ficar contigo, de mãos dadas a vogar no infinito.
(…)
Puta de merda, cala-te e para de choramingar. Quem te oiça até vai dizer que não gostaste do que fizemos. Adoraste cada instante, cada momento em que estive dentro de ti. Tu sabias que estavas irresistível, linda, apetecível, a caminhar sorridente e deslumbrante, exibido despudoradamente o teu ventre prenhe. Estavas tanto a pedi-las…
- Doutor, tem que vir já! As convulsões estão cada vez piores e os gritos são de enloquecer. Acho que ela está a morrer de desespero!
- Pobre coitada. Os casos de violação são sempre complicadissimos. Ter perdido o bebé deixou-a profundamente traumatizada. Aumentou a dose de Neotropazine como lhe disse?
De Profundis
O Outro Lado da Lua Setembro 6, 2006
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A ausência dói: a sombra do dia carrega o sobrolho e a luz da noite obscurece o pensamento. Palavras esquizofrénicas morrem de sede. Ecos incitam-nos a regá-las: n’ O Outro Lado da Lua. O regresso transpirado e desejosos de cuspir sementes apodrecidas na cave das ideias. Não morremos: no fundo «There is no dark side of the Moon really… matter of fact it’s all dark».
Inner Silence